Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse já chegaram — e um deles provavelmente tem milhões de seguidores

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Por Rollo — especializado em desconfiar de quem aparece dizendo que veio salvar o mundo. Porque, estatisticamente, é assim que quase todo apocalipse começa.

Se João de Patmos escrevesse o Apocalipse hoje, talvez começasse assim: “Vi um cavalo branco. Antes, porém, apareceu uma propaganda de aposta esportiva, um influenciador vendendo curso sobre prosperidade e um bilionário explicando por que o sacrifício dos pobres é necessário para salvar a economia.” O fim do mundo precisaria respeitar o intervalo comercial.

Os Quatro Cavaleiros aparecem no sexto capítulo do Apocalipse, último livro do Novo Testamento. Eles surgem quando os primeiros selos são abertos. Não chegam para negociar, formar comissão, divulgar nota de repúdio ou participar de uma reunião internacional com café, fotografia oficial e nenhuma solução. Chegam para trabalhar. E trabalham muito, na Escala 7 x 0.

O primeiro monta um cavalo branco. Carrega um arco, recebe uma coroa e parte para conquistar. Há diferentes interpretações para essa figura. Alguns estudiosos a associam à vitória, à expansão de um império ou até à propagação do Evangelho. Outros enxergam nela o falso salvador: aquele que aparece vestido de solução, pede confiança absoluta e, depois de conquistar tudo, informa que a democracia precisará entrar em manutenção. É o cavaleiro preferido dos líderes autoritários. Ele chega sorrindo, promete restaurar uma grandeza que ninguém consegue localizar no calendário e transforma ressentimento em programa de governo. Não precisa apresentar soluções. Basta escolher inimigos: Imigrantes, jornalistas, cientistas, professores, minorias, opositores, funcionários públicos, artistas e qualquer pessoa que saiba conjugar o verbo “discordar”. E Donald Trump entendeu perfeitamente essa lógica: sua política transformou o conflito em espetáculo, a provocação em método e o palanque em programa permanente de entretenimento. Para seus seguidores, ele representa força. Para seus críticos, personalismo, polarização e desprezo pelas instituições. Para o cavalo branco, representa uma excelente consultoria de imagem. A coroa já estava no texto bíblico. Faltava apenas o boné.

O segundo cavaleiro vem montado em um cavalo vermelho. Ele recebe poder para retirar a paz da Terra e fazer com que os seres humanos matem uns aos outros. Antigamente, isso exigia exércitos, armas, generais e meses de propaganda. Hoje basta uma publicação, uma postagem. O cavaleiro vermelho administra redes sociais. Ele conhece algoritmos, impulsionamento e monetização da indignação. Sabe que a raiva prende mais atenção do que a serenidade, que o medo produz mais cliques do que a razão e que uma mentira emocional percorre o mundo enquanto a verdade ainda está procurando os óculos. A paz não foi exatamente retirada da Terra. Foi removida por violar os termos de uso. A política virou guerra cultural. A divergência virou traição. O adversário virou inimigo. E pessoas que não conseguem organizar a própria gaveta passaram a anunciar estratégias militares para conflitos internacionais. Nunca houve tantos especialistas em guerras alheias escrevendo de pijama.

O terceiro cavaleiro aparece sobre um cavalo preto. Carrega uma balança e anuncia preços altíssimos para alimentos básicos. É o cavaleiro da fome, da escassez e da desigualdade. Provavelmente também é consultor econômico, daqueles que é convidado a opinar sobre o tema nos noticiários da tevê. Sua balança não mede apenas comida. Mede quem pode viver bem, quem sobrevive e quem será informado de que precisa fazer sacrifícios pelo mercado. Curiosamente, os sacrifícios quase nunca atingem quem recomenda os sacrifícios. Quando os pobres passam fome, chamam de ajuste. Quando a classe média perde renda, chamam de transição. Quando os ricos perdem dinheiro, chamam o governo, os bancos centrais, os advogados, os consultores e, se necessário, o próprio cavalo.

O terceiro cavaleiro modernizou sua atividade. Já não precisa provocar falta absoluta de alimentos. Basta torná-los inacessíveis. As prateleiras permanecem cheias. As carteiras, nem tanto. É uma forma sofisticada de fome: a comida está diante de você, iluminada, embalada e fotografada em alta resolução. Só não está disponível para o seu salário. Em “Os Doze Macacos” (Terry Gilliam, 1995), uma epidemia destrói grande parte da humanidade e reorganiza a sociedade. O filme parecia uma fantasia sombria. Então veio a pandemia de COVID-19 e a realidade decidiu fazer sua própria adaptação, sem pedir autorização aos roteiristas. Um vírus microscópico paralisou aeroportos, fechou fronteiras, esvaziou cidades, interrompeu produções, suspendeu eventos e colocou sistemas de saúde sob pressão extrema. A humanidade recebeu uma aula pública sobre  vulnerabilidade. Parte dela, mais uma vez, faltou à aula.

Por fim, surge o quarto cavaleiro, montado em um cavalo pálido e atende pelo nome de Morte. Ao contrário dos demais, não precisa de campanha publicitária. Sua marca já é conhecida. O Hades segue atrás, como um assistente eficiente recolhendo o resultado do expediente. Em “O Sétimo Selo” (1957), de Ingmar Bergman, um cavaleiro encontra a Morte durante a peste e tenta adiar seu destino disputando uma partida de xadrez. É uma das imagens mais famosas da história do cinema. A humanidade moderna provavelmente exigiria mudanças no roteiro.

A Morte chegaria, o cavaleiro pediria sua identificação, um grupo afirmaria que ela era invenção da imprensa e algum influenciador venderia um curso chamado “Derrote a Morte em sete movimentos”. Ao final, todos perderiam, mas o curso teria milhões de visualizações. Em “Melancolia” (2011), de Lars von Trier, um planeta se aproxima da Terra. A catástrofe externa se mistura à angústia interna. O filme pergunta como os seres humanos reagem quando percebem que não controlam o próprio destino. Alguns enfrentam, outros negam. Outros alguns entram em pânico. E alguns tentam monetizar.

Talvez o maior erro seja tratar os Quatro Cavaleiros como criaturas reservadas ao fim dos tempos. Eles nunca foram apenas personagens sobrenaturais. São forças humanas com excelente capacidade de adaptação. O cavalo branco é a conquista disfarçada de salvação. O vermelho é a guerra transformada em identidade. O preto é a fome administrada por planilhas. O pálido é a consequência que todos fingem não ver enquanto ainda há tempo para evitá-la.

A tecnologia avançou. A medicina avançou. A comunicação avançou. A inteligência artificial surgiu e avançou. A humanidade, em vários dias, parece ter pedido para ficar na mesma série. Continuamos fascinados por líderes que prometem grandeza em troca de obediência. Continuamos transformando diferenças em guerras, aceitando que a riqueza se concentre enquanto a fome se espalha. Continuamos tratando fatos como opiniões e opiniões como revelações divinas. E ainda fingimos surpresa quando a conta chega montada num cavalo. João escreveu que viu quatro cavaleiros. Nós fomos além, elegemos alguns. Seguimos outros, compartilhamos seus discursos. Compramos os produtos anunciados durante a cavalgada. Damos like. Assinamos o canal. Ativamos o sininho. E, quando os cascos finalmente começaram a ecoar, fizemos aquilo que a civilização digital aprendeu a fazer melhor: gravamos tudo! Na vertical! E sem ajudar ninguém.

(*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJ na cadeira do Audiovisual. Atualmente, participa da produção do Espaço de Cinema Cavídeo em Vicente de Carvalho (Rio) criado através de Emenda Parlamentar do Deputado Estadual Carlos Minc.

O Cafezinho

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